‘É importante saber quanto cada país emitiu no passado’

Giovana Girardi

14 Novembro 2013 | 08h58

Uma das principais propostas brasileiras na Conferência do Clima da ONU em Varsóvia, de tentar calcular quanto historicamente foi emitido de gases de efeito estufa por cada país, pode ser uma tarefa um pouco mais complicada de se cumprir do que talvez imagine o governo brasileiro.

Em entrevista ao Estado, o climatologista Thomas Stocker, um dos coordenadores do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão que poderia criar a ferramenta para fazer o cálculo, disse que ainda não tem como saber se ela é factível, pois não sabe se dados para isso existem. Mesmo sem ter essa certeza, no entanto, disse acreditar que essas informações poderiam ser úteis na tentativa de lutar contra as mudanças climáticas. Veja a seguir a entrevista:

O senhor acredita que a proposta do Brasil é factível?
Não posso te dar uma resposta definitiva, porque essa prosposta foi formulada recentemente e é preciso considerar se há evidência científica suficiente que pudéssemos acessar e sobre a qual pudéssemos definir uma metodologia. Este trabalho ainda não foi feito, então ainda é muito prematuro para nós fazer uma recomendação nesse sentido.

De todo modo, a geração desses dados não poderia acabar aumentando as acusações entre os países e atravancar ainda mais as negociações?
Como cientista eu digo que precisamos colocar todos os fatos na mesa. E como sabemos hoje quanto cada país joga de carbono na atmosfera e de quais setores, eu acho que é importante responder também a essas questões em relação ao passado. Mas é uma tarefa muito mais difícil, porque não se pode simplemente voltar para trás e olhar algum relatório. Temos de realmente pensar bem se é ou não factível e qual seria o custo.

O relatório desde ano lançado pelo IPCC trouxe ainda mais certezas científicas de que a Terra está aquecendo e de que a responsabilidade é do ser humano. Mas essa já era uma informação sabida pelo menos desde o relatório anterior, de 2007. O sr. acredita que dessa vez os negociadores ouvirão a ciência e vão agir com a urgência que vocês recomendam?
O que nos esforçamos muito para fazer neste relatório foi tentar apresentar nossas descobertas na forma mais simples possível. Colocamos as 19 mais importantes declarações em menos de duas páginas. Oferecemos tudo o que pudemos da ciência para passar uma mensagem compreensível para os formuladores de políticas. Além disso, é importante entender o fato de que há claramente um orçamento de carbono finito. Assim que se define uma meta climática, como o aumento de até 2 graus da temperatura colocado no documento da Convenção do Clima, então os cientistas podem dizer qual é o acumulado de emissões de carbono que é compatível com essa meta climática. Depois isso tem de ser trazido ao contexto do que já foi emitido até hoje, o que permite calcular quanto tempo nós temos.

A repórter viaja a convite da Convenção do Clima da ONU (UNFCCC)