De olho em dinheiro de adaptação, países travam debate

Giovana Girardi

27 Março 2014 | 07h00

Passados três dias de discussões, praticamente não houve avanços na conclusão do sumário para formuladores de políticas do novo relatório do IPCC que é discutido em Yokohama, no Japão.

O documento de cerca de 30 páginas é um resumo dos principais pontos do relatório científico acrescidos mensagens de tom mais político. Representantes dos países discutem com cientistas linha a linha o texto que serve como um guia para orientar as políticas públicas contra as mudanças climáticas. Esse tipo de negociação normalmente é lenta. É da natureza do processo. Mas negociadores experientes presentes à reunião contam que está mais lenta que o normal.

O tema do relatório – impactos, vulnerabilidades e adaptção – é particularmente sensível porque trata de como cada país pode ser afetado e isso, em última instância, significa custos. E, pior, quem vai pagar essa conta.


A Convenção do Clima da ONU (UNFCCC), da qual 190 países são signatários, já estabeleceu a criação do Fundo de Adaptação, que prevê uma ajuda financeira para países mais pobres se adaptarem. E no ano passado, decidiu-se que países que já estão sofrendo os impactos, sem mais chances de se adaptar às mudanças climáticas, também tem de receber pelas “perdas e danos”. Países ricos, em princípio, é que vão ter de colocar dinheiro nesses fundos.

Diante desse quadro, nas discussões que se seguem até sábado, todo mundo quer puxar o fogo para sua sardinha no relatório do IPCC. Quanto mais menções houver sobre impactos e vulnerabilidades melhor, uma vez que o relatório científico acaba, ao menos em teoria, servindo de baliza nas discussões diplomáticas da Convenção do Clima.

É uma questão sutil. Ninguém está declaradamente pedindo dinheiro e por enquanto os negociadores ainda não entraram no tema da adaptação. Mas o dilema de quem vai receber ou pagar a conta é o eterno grande motivador dessas discussões.

Pelo que ouvi de algumas pessoas presentes na reunião, há países pedindo menções no sumário para as quais não existem evidências científicas que as sustentem. Em outros casos, há citações categóricas feitas pelos cientistas que os países querem suavizar. Aí o processo embola. Pela programação, eles têm até sábado para concluir o trabalho.

A imprensa não tem acesso ao que está sendo discutido, mas vale a pena comparar depois a versão que será divulgada na segunda-feira (domingo à noite no Brasil) e a que tinha vazado na internet há alguns meses para ver o quanto mudou.

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