Crise atual e futura dos oceanos

Crise atual e futura dos oceanos

Giovana Girardi

15 Outubro 2013 | 20h47

Comerciantes esperam pescadores em Mbour, Dakaar. A provisão de alimentos obteve 33 pontos no Índice de Saúde do Oceano. Crédito: Kieran Kelleher

Dois estudos divulgados hoje mostram um presente e um futuro sombrios para os oceanos. O estado atual, de acordo com a atualização do Índice de Saúde do Oceano (OHI, na sigla em inglês) é crítico, com capacidade muito baixa de fornecer alimentos e de aproveitar os produtos naturais e as possibilidades de turismo dos mares. A nota global ficou em 65 dentro de 100 possíveis.

E num futuro de aquecimento do planeta, segundo pesquisa da Universidade do Havaí, mudanças biogeoquímicas desencadeadas pelo aumento das emissões de gases de efeito estufa vão afetar todos os habitats e organismos marinhos, chegando ao oceano profundo e, eventualmente, até aos seres humanos.

A avaliação presente é uma atualização melhorada do OHI lançado no ano passado. O trabalho colaborativo de cientistas de diversas universidades e ONGs liderados por Ben Halpern, do Centro Nacional para Análise e Síntese Ecológica, dos EUA, avalia a pontuação obtida por 221 zonas econômicas exclusivas em 10 itens. O Brasil tirou nota 66, ficando na 83ª posição.


Além de provisão de alimentos, produtos naturais e turismo e recreação, foram avaliadas as condições de oportunidades de pesca artesanal, biodiversidade, economia e subsistência costeira, águas limpas, armazenamento de carbono, proteção costeira e identidade local. Do ano passado para cá houve uma mudança na metodologia que elevou as notas médias dos países, mas, de acordo com os organizadores, nas condições gerais, não houve nenhuma melhora.

“A situação continua péssima em todo o mundo. Estamos usando mal os oceanos. Abusamos dos recursos, fazemos ocupação desordenada da costa, poluímos, fazemos um turismo predatório e por conta disso tudo estamos colocando esse grande bioma em risco”, afirma André Guimarães, diretor executivo da Conservação Internacional no Brasil, que colabora com o levantamento.

Ele lembra, no entanto, que só um ano se passou desde que o estudo começou a ser feito, o que não é tempo suficiente para ver mudanças. “O lado bom é que o índice mostra onde há problemas e traz oportunidades para planejar seu uso. Antes dele, não tínhamos esses parâmetros para acompanhar o que acontece, tanto para o bem quanto para o mal”, comenta.

Seguindo a tendência global, o Brasil obteve sua nota mais baixa em uso dos produtos naturais (nota 15), provisão de alimentos (24) e turismo (34). Nos três casos, a nota nacional é menor que a média do planeta (respectivamente 31, 33 e 39). O País vai melhor em oportunidades de pesca artesanal (99 contra 95), armazenamento de carbono (92 contra 74) e proteção costeira (85 contra 69).

Apesar de o Brasil ter recebido essa nota alta em proteção, Guimarães destaca que somente 1,5% da nossa zona econômica exclusiva é protegida como uma unidade de conservação. “O País se comprometeu com a Convenção da Biodiversidade a chegar a 10% até 2020.

Nações pouco povoadas e remotas receberam as melhores nota no OHI, como as Ilhas Heard e McDonald, no Oceano Antártico, que receberam a nota máxima – 94. Compreensível visto que lá vivem somente 110 pessoas e o índice desconta pontos justamente para os impactos aos oceanos causados pela humanidade. Por outro lado, o levantamento mostra que mesmo locais altamente povoados são capazes de lidar melhor com os mares, como Holanda (74 pontos, 21º lugar), França (73 pontos, 32º) e Bélgica (72, 37º).

“Embora a atividade humana tenha impacto na saúde dos oceanos, a adoção de melhores práticas de manejo nas ZEEs também surte efeito positivo e permite obter uma pontuação mais alta no OHI, como é o caso de muitas nações europeias altamente populosas e industrializadas”, comenta Greg Stone, vice-presidente executivo do Centro para Ciência e Oceanos Betty e Gordon Moore, da Conservação Internacional, por meio de sua assessoria de imprensa.

Até 2100. Vai ser necessário muito mais do que a adoção de boas práticas, porém, para evitar o colapso dos oceanos no futuro. Estudo liderado pela Universidade do Havaí e divulgado hoje na revista

Documento

, aponta que além da elevação da temperatura das águas e da acidificação – problemas que já estão ocorrendo em decorrência da maior concentração de gases de efeito estufa – poderemos esperar até o final do século diminuição do oxigênio dissolvido na água e declínio da produtividade dos ecossistemas oceânicos.

Os pesquisadores avaliaram cenários para 32 habitats marinhos e locais de alta biodiversidade e concluíram que o impacto será generalizado. “Poucos lugares ficarão livres de mudanças. A maioria vai sofrer simultaneamente com aquecimento, acidificação e redução da oxigenação e da produtividade”, afirma o autor principal do trabalho, Camilo Mora. Somente alguns locais nas áreas polares verão aumento dos dois últimos fatores.

O estudo calcula que a pesca e o turismo serão afetados, podendo atingir até 870 milhões de pessoas que vivem em países pobres e dependem do oceano para comer ou trabalhar.