Cientistas declaram que não existe carvão verde

Giovana Girardi

18 Novembro 2013 | 14h52

Não existe essa ideia de carvão verde. Mesmo projetos de melhoria das usinas para que elas se tornem mais eficientes seria capaz de reduzir apenas 25% das suas emissões, o que não seria suficiente para segurar o aquecimento a no máximo 2˚C. Para atingir essa meta, usinas de carvão só poderiam funcionar se tivessem mecanismos de captura e armazenamento de carbono (CCS).

Essas são as principais mensagens de um estudo conduzido por 27 pesquisadores da área de energia climática de várias partes do mundo lançado ontem por ocasião da Conferência do Clima da ONU, que ocorre em Varsóvia, e também pela Cúpula Mundial do Carvão, que simultaneamente a capital polonesa sedia.

A publicação se dá num momento em que as emissões do setor ainda crescem, apesar de todas as recomendações em contrário, e novas plantas a carvão são planejadas, inclusive no Brasil. O País chegou a fazer um leilão de carvão em agosto, mas não teve interessados, apesar dos incentivos dados pelo governo, que zerou o IPI da atividade. Agora a possibilidade volta à tona, em novo leilão a ser realizado em dezembro.

De acordo com o novo estudo, mesmo a usina de carvão mais eficiente ainda emite uma quantidade de CO2 por unidade de eletricidade equivalente a 15 vezes àquela emitida por sistemas de energia renovável e mais de duas vezes a quantidade emitida por plantas a gás. É a forma de energia mais suja que existe.


O trabalho traz uma resposta para a proposta da indústria do carvão de que seria possível, com uma alta eficiência, diminuir substancialmente as emissões a fim de justificar a continuidade do negócio. 

“Uma usina normal emite cerca de 1000 gramas de CO2 equivalente por quilowatt-hora. As mais eficientes conseguem reduzir para 750, mas isso ainda são emissões muitos altas que continuarão indo para a atmosfera por mais 40 ou 50 anos, então não resolve. Não é tecnologia de baixo carbono”, afirma Bert Metz, da Fundação Climática Europeia, e um dos autores do trabalho.

O estudo mostra, para comparação, que as emissões de usinas eficientes de gás ficam em torno de 350 gCO2. Já as das fontes renováveis ficam em torno de 10 a 20 para eólica e 35 a 50 para a solar.

A possibilidade foi aventada pelo governo brasileiro por uma questão de segurança energética, em momentos de falta das hidrelétricas por problemas de seca, por exemplo. Hoje termelétricas já são ligadas nessas situações, mas elas funcionam a gás natural, menos poluente que o carvão, mas mais caro.

“Mas o Brasil tem vários outros recursos energéticos, não precisa apelar para o carvão”, afirma o pesquisador Emilio La Rovere, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos autores do trabalho. Fora as próprias hidrelétricas e eólicas, que sofreram um barateamento nos últimos anos, ele cita como alternativa o bagaço da cana, que poderia de forma mais abrangente ser queimado no País. 

“Esses resultados são importantes para nos lembrar dos compromissos voluntários que a gente assumiu em reduzir as emissões de gases de efeito estufa”, alerta.

Sequestro. Segundo os autores, só faria sentido considerar usinas a carvão como parte de um plano de baixo carbono se novas plantas incluírem projetos que sequestrem o carbono emitido e o armazem debaixo da terra — os tais CCS, que hoje ainda são uma promessa. É mesma solução que o Brasil vê, por exemplo, para conter os danos, em termos de emissões, da exploração do petróleo do pré-sal.

Os cientistas alertam que se não houver alguma estratégia assim, simplemente a conta de tentar manter a temperatura até 2˚C de aumenta simplemente não fecha. “Ou você tem uma coisa ou tem outra, as duas não dá”, diz Metz.

Eles trabalharam com o conceito de “orçamento de carvão”, cunhando pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, que calcula quanto ainda o mundo pode emitir para manter a meta de temperatura até o final do século. Por essa conta, a quantidade liberada até hoje foi de 515 gigatoneladas de CO2 e sobrariam cerca de 1050 até 2100. 

Para algumas áreas, pontuam os cientistas, não temos muitas alternativas, como o uso de petróleo para transporte marinho, aéreo e de veículos pesados. Então é necessário substituir onde dá por tecnologias de baixa emissão, como é o caso da produção de energia elétrica. Pelos cálculos, o uso de carvão teria de declinar de 80% a 96% até 2050.