China e Estados Unidos ratificam o Acordo de Paris

Giovana Girardi

03 Setembro 2016 | 12h04

Smoke rises from chimneys and facilities of steel plants on a hazy day in Benxi

China e Estados Unidos, os dois maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo, anunciaram conjuntamente na manhã deste sábado, 3, na China (noite de sexta-feira no horário de Brasília), a ratificação do Acordo de Paris, que estabelece esforços do mundo inteiro para reduzir as mudanças climáticas e controlar o aumento da temperatura.

Juntos, os dois países respondem por 38% das emissões do planeta. China é o líder atual, com cerca de 20%, e os EUA, que historicamente assumiram essa posição, respondem hoje por 18%. São os primeiros grandes países a ratificarem o acordo, o que deve acelerar sua implementação em todo o mudo.

Para entrar em vigor, o acordo, estabelecido no ano passado na Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-21) em Paris, precisa ser ratificado por 55 países que respondam por 55% das emissões. Até antes do anúncio, 24 países já tinham feito a ratificação, mas eles respondiam por apenas cerca de 1% das emissões. Com o anúncio, essa fatia subiu para 39,06%, segundo informações passadas pelos próprios países à ONU. A expectativa é que se alcance o total necessário até o final do ano.

O compromisso acordado por 195 nações do mundo é de se fazer esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa a fim de que o aumento da temperatura do planeta não passe muito de 1,5°C, ficando “bem abaixo de 2°C”.

Assim como já tinham feito antes, quando também anunciaram conjuntamente seus compromissos de redução de gases de efeito estufa (cada país do mundo disse quanto pode contribuir para o esforço global), os presidentes Barack Obama (EUA) e Xi Jinping (China) fizeram o anúncio na véspera da reunião do G-20 em Hangzhou, na China.

“Assim como eu acredito que o acordo de Paris vai se revelar um ponto de virada para o nosso planeta, acredito que a história vai julgar os esforços de hoje como fundamentais”, disse Obama, ao lado de Xi Jinping e do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon.

A secretária-executiva da Convenção do Clima da ONU (UNFCCC) saudou o anúncio. “Gostaria de agradecer China e Estados Unidos por ratificarem o acordo, sobre o qual repousa a oportunidade de um futuro sustentável para todas as nações e todas as pessoas”, disse por meio de nota. “Quanto mais cedo o acordo for ratificado e totalmente implementado, mais seguro o futuro vai se tornar”, acrescentou.

China se comprometeu a atingir o pico de emissões de CO2 até 2030, reduzir a intensidade de carbono de sua economia (quanto de carbono é emitido por unidade econômica produzida), aumentar as fontes não-fósseis de energia e aumentar os estoques florestais. Os Estados Unidos se comprometeram a reduzir entre 26% e 28% suas emissões até 2025, em relação aos valores de 2005.

De acordo com análise feita pelo Climate Interactive com a escola de economia Sloan do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), as duas metas juntas devem responder por 51% das emissões evitadas entre 2016 e 2100 considerando todas os compromissos anunciados pelos demais países.

Além de ser o maior poluidor histórico, a ratificação por parte dos EUA é simbólica porque o país por anos foi considerado o maior entrave a acordos climáticos. A primeira tentativa de se controlar as mudanças climáticas foi o Protocolo de Kyoto, que estabelecia metas de redução das emissões por parte dos países ricos. Mas os EUA, apesar de terem o assinado, acabaram se recusando a ratificá-lo quando o ex-presidente George W. Bush, do partido republicano, assumiu o governo e o protocolo naufragou.

A pressa de Obama se justifica também porque o atual candidato republicano, Donald Trump, já manifestou que, se eleito, iria rever a assinatura do Acordo de Paris, o que deve ficar mais difícil com a ratificação.

Para o ambientalista brasileiro Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, o anúncio à véspera da reunião do G-20 “é uma demonstração de liderança e deve colocar outros grandes poluidores sobre pressão para acelerar seu processo de ratificação”.

Por meio de nota, ele afirmou: “Antes tarde do que nunca, já que EUA e China foram os principais responsáveis pelo fracasso da conferência de Copenhague, que deveria ter-nos dado um acordo do clima global sete anos atrás. É preciso agora começar a falar sério sobre o grau de ambição das metas de redução de emissões de todos os países do G20, inclusive as brasileiras, que ainda nos levam a um mundo de caos climático.”

Ele se referiu a diversos cálculos científicos que mostraram que apenas as metas anunciadas pelos países deixam o planeta bem além da temperatura desejada. As estimativas são que podemos chegar a um aumento de 3°C até o final do século se os países fizerem apenas as reduções prometidas.

Brasil. O Brasil, que já teve o acordo aprovado por Câmara e Senado, perdeu o oportunidade de se tornar o primeiro grande país entre os maiores poluidores a ratificar Paris. O presidente Temer chegou a anunciar que o faria na última segunda-feira (29), quando começava o julgamento do impeachment da presidente Dilma, mas o cancelou na véspero e o remarcou sem mais explicações para o dia 12 de setembro.