Fauna silvestre é ameaçada por atropelamentos

Fauna silvestre é ameaçada por atropelamentos

Estimativa é de que 475 milhões de animais são mortos em rodovias e estradas do Brasil por ano. Só no MS, levantamento contabilizou 128 antas atropeladas em três anos, ameaçando a fauna, enquanto ONG no interior de São Paulo sofre com o aumento da demanda e faz crowdfunding para abrigar melhor suas onças

Giovana Girardi

10 Julho 2016 | 05h00

Lobinho-guará atropelado em canavial de São Paulo. Hélvio Romero / Estadão

Lobinho-guará atropelado em canavial de São Paulo. Hélvio Romero / Estadão

Anhanguera era uma suçuarana macho, jovem, que recebeu esse apelido depois de ser atropelado na rodovia de mesmo nome, no Estado de São Paulo. Acolhido em um centro de recuperação de animais em Jundiaí, passou por cuidados ao longo de um ano e foi reintroduzido na natureza, na Serra do Japi. Um ano depois, foi atropelado novamente, dessa vez na rodovia dos Bandeirantes, e morreu.

Destino parecido teve um lobo-guará que voltou à natureza depois de ter sido encontrado perdido no meio de Campinas, mas após seis meses de vida livre, estava em uma área que pegou fogo, ele fugiu e acabou atropelado e morto perto de Bragança.

Os relatos dramáticos são colecionados por Cristina Harumi Adania, coordenadora de fauna da Associação Mata Ciliar, entidade de Jundiaí que recebe animais silvestres feridos, aprisionados ou que foram vítima de tráfico animal de todo o País. Nos últimos anos, ela notou um aumento de 30% no número de animais que chegam ao local como vítimas do que ela chama de “causas urbanas”, como atropelamento. A demanda é tanta que a ONG está fazendo um crowdfunding para a construção de novos recintos para seus maiores animais, as onças (leia mais abaixo).


Em outra parte do Brasil, no Mato Grosso do Sul, um levantamento feito pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) contabilizou pelo menos 128 antas mortas por atropelamento em apenas sete trechos de rodovias do Estado nos últimos três anos, o que coloca sob ameaça a sobrevivência, no Cerrado, do maior mamífero da América do Sul no Cerrado.

Nessa mesma área, durante o primeiro ano do levantamento do IPÊ (2013 a 2014), foram encontrados também 1.048 animais mortos de outras 17 espécies de mamíferos, como cachorros-do-mato (271), tatu-pebas (249), tamanduás-bandeira (135) e capivaras (107).

Não são casos isolados. Histórias como essas ocorrem no País inteiro, seja em grandes rodovias ou em estradas de terra. Cálculos feitos por pesquisadores do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE) da Universidade Federal de Lavras estimam que até 475 milhões de animais silvestres são mortos por atropelamento por ano. São 15 por segundo. Em algumas rodovias, há um animal morto a cada 100 km.

O dado – uma taxa média para o Brasil extrapolada a partir de 14 estudos científicos com registros de mortes nos vários biomas – é levando em conta por órgãos oficiais como o Ministério do Meio Ambiente e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). E foi o que incentivou a criação do projeto de lei 466/2015, em tramitação em regime de urgência na Câmara, que institui a adoção de medidas para assegurar a circulação segura de animais silvestres pelo País.

Cadê as carcaças? O trabalho, coordenado pelo ecólogo Alex Bager, aponta que 90% das vítimas são pequenos vertebrados, como sapos, pequenas aves e cobras. Cerca de 9% são animais de médio porte, como gambás, tatus e macacos, e 1% (ou quase 5 milhões) são animais de grande porte, como onças, lobos-guarás, antas, capivaras, gaviões e jacarés.

“Com essa base de dados, complementada com as pesquisas, estamos identificando quais são os lugares no Brasil de maior impacto para cada espécie, quais trechos de rodovia devem ser objeto de ação para reduzir os atropelamentos e quais são os riscos para a viabilidade dessas populações”, afirma o pesquisador.

“As pessoas em geral se assustam com esse número e me perguntam como, então, não estamos andando em cima de carcaças de animais. Mas a grande maioria é muito pequena. Passando a 100 km/h em cima deles, o motorista nem percebe. E muito rapidamente as espécies carniceiras, como urubus e carcarás, retiram os restos da pista. E nesses momentos, muitas vezes eles são atropelados também”, declara Alex Bager.

Conta ainda para o efeito de “invisibilidade” dos animais mortos o fato de que muitos casos – em geral dos bichos maiores – ocorrem longe dos grandes centros, como mostram as estatísticas com antas do IPÊ. Ainda assim, há casos simbólicos em pleno Estado de S. Paulo, como a suçuarana e o lobo-guará do começo desta reportagem.

“É o conflito com o desenvolvimento da malha viária, com a construção de condomínios, com as indústrias. Os animais às vezes estão fugindo do fogo na mata e vão parar nas estradas, rodovias. Estamos recebendo cada vez mais animais porque está aumentando a destruição dos hábitats. A escassez de alimentos faz os animais se arriscarem mais e nisso eles também correm o risco de atropelamento”, afirma Cristina, da Associação Mata Ciliar.

Desde que a estimativa dos 475 milhões foi proposta, outras pesquisas vêm sendo feitas pelo grupo para aprimorar as contas e também trazer mais detalhamento sobre a situação dos animais silvestres no País, principalmente os que estão sob alguma ameaça de extinção. Um trabalho ainda preliminar, feito com lobos-guará, indica, por exemplo que locais com temperaturas elevadas, rodovias de alto fluxo e longe de unidades de conservação são os mais críticos para a espécie. Análise similar será feita para felinos e o tamanduá-bandeira.

O CBEE conta ainda com a participação dos cidadãos ao Sistema Urubu, que os pesquisadores definem como uma rede social de conservação da biodiversidade. Por meio de um aplicativo de celular qualquer pessoa pode colaborar com informações sobre a mortalidade de fauna selvagem nas rodovias e ferrovias. Os dados são validados por pesquisadores e servem para orientar concessionárias e órgãos governamentais.

Em 13 de novembro, os organizadores realizam o Dia Nacional de Urubuzar, em que diversos eventos são realizados no País para conscientizar as pessoas sobre os riscos de atropelamento e para ensinar a usar a ferramenta.

Lei para as rodovias. A principal aposta dos cientistas e de ambientalistas para conter os atropelamentos é o projeto de lei que cria regras para as rodovias. Pela proposta do deputado Ricardo Izar (PSD-SP), elaborada com os pesquisadores do CBEE e da Rede Pró-Unidades de Conservação, todas as estradas, inclusive as que já existem, têm de adotar medidas que auxiliem a travessia da fauna silvestre, como instalação de sinalização e redutores de velocidade, passagens aéreas ou subterrâneas, passarelas, pontes, cercas e refletores, além de ações de educação ambiental com campanhas de conscientização dos motoristas.

Patrícia Medici, coordenadora da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira do IPÊ, conta que antes de investigar as antas do Mato Grosso do Sul, ela observou por 12 anos a morte desses animais em uma estrada que corta o parque do Morro do Diabo, em São Paulo. Em 2007 ela lançou um alerta de que seis antas estavam morrendo atropeladas por ano no local e que, se continuasse naquele ritmo, o bicho desapareceria do parque em menos de 40 anos.

“O problema foi resolvido com a colocação de placas – sinalizando que ali é uma área protegida, que há risco de atropelamentos da fauna – e de radares surpresa no parque. Hoje morre uma anta atropelada no local a cada três anos, o que demonstra a necessidade de intervenção em prol dos animais nas rodovias e estradas”, afirma.

Depois no Mato Grosso do Sul, ela observou que os atropelamentos ocorrem a uma velocidade e a uma quantidade muito maiores. Em apenas cinco dias no final de junho, quatro antas foram encontradas mortas. No começo de julho, outras quatro. E a perda ocorre dos dois lados. Nos últimos três anos, 14 pessoas morreram nos acidentes.

“Em algumas estradas, descobrimos que existiam túneis para a passagem da fauna, mas eles estão descuidados, escondidos, os bichos não conseguem ver. Em outras, a beira está com muito mato, o motorista nem tem como ver. Se uma anta sai para a estrada, já está em cima do carro”, alerta. “E 128 onças são as que conseguimos ver. São só a ponta do iceberg, certamente houve outras que não foram detectadas por nossa equipe”, afirma Patrícia Medici.

A anta é o maior mamífero terrestre da América do Sul. Pode atingir de 250 kg a 300 kg. E tem um ciclo reprodutivo longo, de 13 a 14 meses, quando nasce um único filhote. “É um animal que quando sofre um impacto tão alto é pouco provável que consiga se recompor apenas com essa reprodução tão lenta”, afirma Patrícia.

O projeto de lei está em regime de urgência, mas deve, como todo o resto no Congresso, entrar na fila de votação somente depois de ser apreciado o pedido de impeachment da presidente Dilma. Segundo Ugo Vercillo, diretor do Departamento de Espécies do Ministério do Meio Ambiente, enquanto isso medidas para tentar reduzir os atropelamentos são feitas nos processos de licenciamento de rodovias, como criação de túneis, passagens ou estradas-parque. “Temos noção do problema e estamos buscando soluções. Mas talvez a velocidade de ação esteja mesmo abaixo da velocidade das vias”, diz.


ONG faz ‘vaquinha’ para aumentar espaço para onças

São 10 animais em média por dia que chegam à Associação Mata Ciliar, em Jundiaí, e Cristina Harumi Adania, coordenadora de Fauna do local, já não sabe mais o que inventar para abrigar a bicharada. Entre filhotinhos de tamanduá-bandeira e de gato do mato a onças e lobos-guarás adultos, além de centenas de aves, vivem no Centro de Recuperação de Animais Silvestres (CRAS) cerca de mil animais.

Lobo-guará Balu, prestes a ser reintroduzido na natureza depois de ter sido atropelado. Hélvio Romero / Estadão

Lobo-guará Balu, prestes a ser reintroduzido na natureza depois de ter sido atropelado. Hélvio Romero / Estadão

Alguns, depois de tratados, têm chance de voltar à natureza, como o lobo-guará Balu, de 1 ano e 2 meses, que foi atropelado e chegou à associação com duas fraturas e agora está prestes a ser reintroduzido.

Outros não têm a mesma sorte e precisam ficar em abrigos em condições adequadas para as espécies. O objetivo principal é a soltura, mas a associação possui apenas uma área grande o bastante para fazer a reabilitação do animal antes de levá-lo de volta a natureza, o que deixa o ritmo de devolução bem lento.

Segundo Cristina, cerca de 35% dos animais que chegam ali retornam à natureza. “Infelizmente a demanda de chegada é maior que a minha capacidade de reabilitação e soltura”, explica a médica veterinária.

Entre os animais com menos chance de voltar estão algumas das 16 onças pintadas e pardas que vivem na Mata Ciliar. A mais antiga chegou ali há 18 anos. “São animais que já estão aqui há muito tempo ou que têm algum problema. Se não podem voltar, temos obrigação de dar qualidade de vida para eles.”

Ela se refere ao fato de que as onças vivem em recintos de apenas 40 metros quadrados, que, apesar de estarem em acordo com as determinações do Ibama, não são exatamente o melhor conforto possível para animais tão grandes.

Por isso a associação está participando, com a organização da ONG Ampara Animal, do projeto de crowdfunding “A Toca da Onça” para levantar recursos para a construção de seis novos recintos para as onças, de 180 metros quadrados, enriquecidos com vegetação natural, além de um novo recinto de reabilitação de 3 mil metros quadrados, para ampliar as chances de soltura de outros animais.

Deste novo espaço, mais animais como Balu poderiam se beneficiar. Também pode ajudar que as onças-pintadas Itabatinga e Codajás voltam para a natureza. Entre as 16 que vivem na associação, as duas são as que mais têm condições de retornar.

Itabatinga foi encontrada pelo Ibama ainda bebê vivendo ilegalmente numa casa e foi levada para a reabilitação. Ela hoje divide o recinto com um macho, o Codajás, também jovem como ela que foi encontrado sozinho em uma estrada na Amazônia. Cristina colocou os dois juntos para eles se acostumarem um com o outro, o que diminui a dependência de humanos.

Até agora a campanha coletou pouco mais de R$ 20 mil, mas a expectativa é chegar a R$ 500 mil. “Quando se trata de animais silvestres, infelizmente as pessoas ainda tendem a vê-los como distante e as doações ficam mais difíceis. Ainda estamos indo mais devagar do que a gente imaginava. O investimento é alto porque são animais muito fortes, que escalam, que caçam, que precisam de estrutura reforçada e, claro, o enriquecimento ambiental também acaba encarecendo”, afirma Juliana Camargo, presidente da Ampara Animal.