Área reflorestada atrai 208 espécies de aves no interior de SP

Projeto experimental reconstitui Mata Atlântica em terreno já ocupado por cafezal e pasto; recuperação acontece há apenas 8 anos e também aumentou a oferta de água

Giovana Girardi

04 Junho 2016 | 16h30

Rafael Bitante Fernandes, gerente de restauração florestalobserva área recuperada no Centro de Experimentos Florestais. Tiago Queiroz / Estadão

Rafael Bitante Fernandes, gerente de restauração florestal, observa área recuperada no Centro de Experimentos Florestais. Tiago Queiroz / Estadão

Nos primórdios era uma floresta, que foi derrubada para virar um cafezal, que depois foi coberto por pasto e hoje é uma floresta de novo. Ainda em processo de amadurecimento, verdade, mas seus benefícios já começam a ser sentidos: houve retorno da fauna e aumento da oferta de água nas nascentes do local. Esse é um resumo da história do Centro de Experimentos Florestais da SOS Mata Atlântica, localizado em Itu.

Em pouco mais de oito anos de atividades de recuperação da vegetação, em uma área de 386 hectares, houve o retorno de 200 espécies de aves nativas – incluindo algumas ameaçadas de extinção (veja imagens abaixo). Até mesmo uma onça parda começou a ser observada passeando pelo local. O reflorestamento também promoveu um aumento da oferta de água.

No Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado neste domingo, 5, a história serve como exemplo dos desafios e também dos ganhos que o Brasil pode ter ao cumprir uma das metas assinadas junto ao Acordo de Paris de restaurar 12 milhões de hectares de floresta.

Foi o potencial hídrico que colocou a área de 524 hectares na mira no programa de restauração da ONG. Nos anos 70, depois de décadas servindo como cafezal, o local foi comprado pela empresa de bebidas Schincariol (hoje Brasil Kirin) por ter várias nascentes que poderiam servir a uma das fábricas, a cerca de 7 quilômetros dali.

Foram construídos reservatórios e poços de captação profunda, mas o solo foi quase todo coberto por pasto, o que hoje se sabe ser danoso para nascentes ou para a absorção de água para o lençol freático.

Na fazenda, haviam restado somente dois pequenos fragmentos de vegetação natural, que cobriam menos de 10% do terreno – ao contrário do que preconiza a lei para ser protegido nos formatos de Reserva Legal (pelo menos 20%) e Área de Preservação Permanente (APP). Em 2004 começaram as conversas com a SOS Mata Atlântica para a recomposição da área. “Eles queriam proteger as nascentes. O negócio principal da empresa é água”, conta o biólogo Rafael Bitante Fernandes, gerente de restauração florestal da ONG.

O local foi então cedido para a criação do Centro de Experimentos Florestais. Ao lado de uma rodovia e cercada por outras propriedades rurais e condomínios de alto padrão, a propriedade precisou de um intenso plantio de mudas para recuperar a cobertura florestal. Segundo Fernandes, de 2007, quando o projeto começou, até o final de 2012, foram plantadas 720 mil mudas de 130 espécies diferentes. Os primeiros locais a receberem as árvores foram os entornos dos corpos d’água, para protegê-los, e depois aqueles que estavam com pastagem.

No local também foram criados viveiros com capacidade de produzir mais esse tanto de mudas por ano, que são encaminhadas por outros projetos de restauração no entorno. A média de custo de restauração desses projetos e do centro de experimentos varia de R$ 17.500 a R$ 22.000 por hectare.

Bioindicador. Do alto de uma torre de observação é possível comparar os efeitos do projeto com a vizinhança, que ainda tem pasto. Apesar de ainda estar crescendo e ganhando corpo, ali já existe uma florestinha que mudou completamente a paisagem do local. Além do visual, dois resultados são os mais marcantes: a volta da fauna e da água.

Não se sabe exatamente quais animais existiam ali antes de o projeto começar, mas um levantamento das aves feito em 2009 identificou que viviam ou passavam por ali 81 espécies normalmente associadas a ambientes aquáticos e a paisagens abertas, sem floresta. O trabalho de monitoramento continuou e, em dezembro do ano passado, o número já tinha saltado para 208.

Várias aves iniciais permaneceram, até porque a paisagem do entorno continua aberta, mas começa a haver um incremento de espécies que preferem ambientes mais sombreados, afirma o ornitólogo Marcos Melo, mestrando da Universidade Federal de São Carlos, que participou do estudo. Ele explica que como se trata de uma mata secundária em processo de recuperação, ainda não tem as características de uma floresta completamente fechada, mas espécies que toleram esses estágios já ocorrem em maior número.

“E para aquelas que só encontram habitat na floresta mesmo, o centro já funciona como trampolim ecológico”, diz. “É o caso do gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis). Vimos que um adulto e um filhote ficaram alguns dias no local, se alimentaram e depois continuaram viagem”, conta.

Também foram observadas duas espécies ameaçadas de extinção – a curica (Amazona amazonica), um tipo de papagaio, e a cabeça-seca (Mycteria americana), um tipo de cegonha, que praticamente já não são mais vistas no Estado de São Paulo – e treze endêmicas da Mata Atlântica, como a saíra-ferrugem (Hemithraupis ruficapilla) e o barbudo-rajado (Malacoptila striata).

Chamou atenção ainda uma ave migratória conhecida como águia-pescadora (Pandion haliaetus), que desce do hemisfério norte para o sul no período de outubro a março, fugindo do inverno boreal. Grande, com cerca de 2 metros de envergadura, ela começou a ser vista há alguns anos usando os reservatórios da fazenda para pescar. Fernandes conta que depois de pegar os peixes, ela gosta de ficar na torre de observação. “Quando a gente sobe lá no verão, vira e mexe encontra uns espinhos de peixe”, brinca.

O coordenador do programa explica que as aves funcionam como bioindicadores da qualidade do sistema uma vez que seus hábitos são bastante conhecidos. “Se vemos uma ave de áreas fechada num lugar, é porque o local está adequado para ela”, diz. “O centro acabou virando um grande refúgio de floresta em meio a uma região de pastagem, cana e urbanizada.”

Sem seca. Outro ganho da recuperação florestal foi sobre os recursos hídricos. Ao longo de mais de oito anos do projeto, 17 nascentes que já eram conhecidas no local e duas novas que foram descobertas voltaram a verter água. Segundo Fernandes, o volume de água superficial aumentou 5%, na comparação com o período anterior ao reflorestamento, e o subterrâneo, 20%.

“É debaixo da terra que a gente espera ter ainda mais incremento de água com o passar do tempo”, afirma Fernandes. “É isso que vai garantir abastecimento se não tem chuva.” Ele conta que durante a seca histórica que atingiu o Estado entre 2014 e 2015, o local praticamente não foi afetado porque as árvores deixam o ambiente mais resiliente.

Uma parte da água serve para abastecer a fábrica, mas foi montado um esquema com bicas para que a população da cidade pudesse pegar água para uso emergencial durante a crise.

“As lagoas baixaram um pouco, mas aqui não teve crise hídrica, ao contrário do que ocorreu na cidade de Itu. Minha casa ficou 19 dias sem água. A de um outro funcionário, 30 dias. A gente vinha tomar banho aqui”, lembra.