Aquecimento global melhorou capacidade do Aedes de transmitir dengue

Aquecimento global melhorou capacidade do Aedes de transmitir dengue

As mudanças climáticas já são uma das principais urgências de saúde pública no mundo. O aumento da temperatura tem levado a uma redução na produtividade no trabalho, a um aumento no número de desastres climáticos e na capacidade de transmissão de doenças, como a dengue, por mosquitos, aponta relatório

Giovana Girardi

30 Outubro 2017 | 21h30

Relatório “Lancet Countdown” revela que a capacidade do Aedes aegypti de transmitir dengue aumentou, globalmente, 9,4% desde 1950 como resultado do aumento das temperaturas. Reuters

As mudanças climáticas já são uma das principais urgências de saúde pública no mundo e ameaçam minar os avanços dos últimos 50 anos no setor. O aumento da temperatura tem levado a uma redução na produtividade no trabalho, a um aumento no número de desastres climáticos e na capacidade de transmissão de doenças, como a dengue, por mosquitos.

Essas são as principais mensagens de um relatório sobre os impactos das mudanças climáticas na saúde humana publicado nesta segunda-feira, 30, pela prestigiosa revista científica Lancet.

O Lancet Countdown, resultado do trabalho de 24 instituições acadêmicas e agências governamentais de todos os continentes, traz um balanço válido para o mundo inteiro – houve poucas distinções específicas para países. Mas alguns dados encontram reflexo direto no Brasil.


É o caso da dengue. O trabalho revela que a capacidade do Aedes aegypti de transmitir a doença aumentou, globalmente, 9,4% desde 1950 como resultado do aumento das temperaturas. O cenário ficou mais acentuado a partir de 1990 – de lá para cá sua capacidade de transmissão cresceu 3%.

Menos citado no Brasil, o Aedes albopictus, que ocorre em áreas mais verdes, também se tornou mais apto a transmitir a doença em 11,1% desde 1950, ou 5,9% desde 1990.

O número anual de casos de dengue, de acordo com o levantamento, dobrou em cada década desde 1990, atingindo 58,4 milhões de casos em 2013 e 10 mil mortes em todo o mundo. “As mudanças climáticas vêm sendo apontadas como um potencial contribuinte para este aumento. Lembrando que os dois mosquitos também carregam outros importantes vírus, como febre amarela, chikungunya e zika, que provavelmente respondem de modo similar à mudança do clima”, destaca o sumário executivo do relatório, assinado por cerca de 60 pesquisadores na edição desta segunda da Lancet.

Vida real
“Um exemplo bem atual que temos no Brasil é o avanço da fronteira da febre amarela silvestre. Antigamente se tomava a vacina para ir para a Amazônia. Agora está se vacinando na zona Norte de São Paulo. Isso é fruto de mudanças no regime de chuvas e de temperatura que favorecem a eclosão do mosquito”, disse ao Estado o pesquisador Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina da USP.

Ele não participou diretamente do trabalho, mas estará junto com uma das autoras, a sueca Sonja Ayeb-Karlsson, da Universidade das Nações Unidas, discutindo os resultados em evento nesta terça-feira no Instituto de Estudos Avançados da USP.

O relatório, comenta o pesquisador, tem a vantagem de aproximar da vida real das pessoas um problema que muita gente vê como algo distante e a longo prazo. Tanto ao mostrar os impactos diretos, mas também por sugerir que mudanças no estilo de vida e nas políticas públicas também podem ser boas tanto para o planeta quanto para a saúde dos seres humanos.

“A gente tem um discurso muito pouco realista sobre sustentabilidade. Diz para o cidadão comum que se ele deixar carro em casa, ficar no escuro à noite, tomar banho de canequinha, diminuir o consumo de carne, daqui a 80 anos vão começar a estabilizar os níveis de CO2 no planeta e o primeiro ser vivo beneficiado será o urso polar. Não acho que esse seja um argumento que atraia multidões”, reflete Saldiva.

“Mas dá para mudar esse discurso. Se deixar o carro em casa, em São Paulo, por exemplo, a pessoa vai caminhar, sem perceber, de 5 a 6 mil passos por dia. Vai perder peso, mais ou menos 350 gramas por mês, caso continue comendo a mesma coisa, e seus riscos de osteoporose e doença cardiovascular caem. As pessoas podem enxergar um benefício imediato na vida delas. Com isso podemos começar a mostrar que o que é sustentável numa política de longo prazo, climática, também é mais saudável no curto prazo com efeito local”, complementa.

Desigualdade
O relatório destaca que os impactos das mudanças climáticas vêm sendo sentidos de modo desproporcional no mundo, atingindo mais as populações vulneráveis e pessoas de países de mais baixa renda, o que piora as desigualdades.

A desnutrição foi identificada como o maior desses impactos sobre a saúde no século 21. O número de pessoas com subnutrição em 30 países da Ásia e da África passou de 398 milhões para 422 milhões desde 1990. Parte disso, afirmam os pesquisadores, se dá em decorrência dos impactos do aumento de temperatura e mudança nos regimes de chuvas sobre a produção agrícola. Os autores registram a queda de 6% na produtividade global do trigo e de 10% nas safras de arroz para cada aumento adicional de 1°C na temperatura global.

Outro alerta vem dos eventos extremos. O trabalho aponta que entre 2007 e 2016 ocorreram, em média, 306 desastres relacionados ao clima, principalmente enchentes e tempestades, um aumento de 46% desde 2000. E 125 milhões de adultos acima de 65 anos adicionais foram expostos a ondas de calor no mesmo período. Os autores estimam que até 2050, podem ocorrer quase 1 bilhão de eventos adicionais de exposição a ondas de calor.

Os danos já têm reflexos também na economia. Perdas econômicas ligadas a eventos climáticos extremos foram estimadas em US$ 129 bilhões apenas em 2016. O aumento da temperatura também já está está impactando a capacidade de trabalho. O clima mais quente já resultou em uma perda média 5,3% na produtividade de trabalhadores que fazem serviços manuais e externos em áreas rurais.

Em entrevista coletiva, os autores afirmaram que, apesar dos resultados, ainda há tempo para impedir danos ainda maiores. “Estamos apenas começando a sentir os impactos das mudanças climáticas. Qualquer pequena quantidade de resiliência que possamos ter como garantida hoje será esticada até o ponto de ruptura mais cedo do que imaginamos”, comentou Hugh Montgomery, copresidente do Lancet Countdown e diretor do Instituto de Saúde e Performance Humanas da University College London.

“Nós precisamos tratar a causa e os sintomas das mudanças climáticas. Há muitas maneiras de fazer as duas coisas que fazem um melhor uso dos orçamentos sobrecarregados da saúde e melhoram as vidas no processo “, disse.

“O relatório mostra o impacto que as mudanças climáticas estão tendo na nossa saúde hoje. Também mostra que atacar as mudanças climáticas diretamente, inequivocamente e imediatamente melhora a saúde global. É simples assim. Quando um médico nos diz que precisamos cuidar melhor da nossa saúde, prestamos atenção e é importante que os governos façam o mesmo”, defendeu Christiana Figueres, presidente do Conselho Consultivo de Alto Nível da Lancet e ex-secretária executiva da Convenção do Clima da ONU (UNFCCC).

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