Análise: O quanto Trump pode piorar o aquecimento global?

Análise: O quanto Trump pode piorar o aquecimento global?

As três quebras consecutivas de recorde de temperatura no planeta são sinal inequívoco de que a Terra está aquecendo e mais rápido do que os cientistas previam. Se os EUA com Trump deixarem de cumprirem suas metas – ou pior, aumentarem suas emissões – a chance de controlarmos o aquecimento a 2°C fica muito reduzida

Giovana Girardi

19 Janeiro 2017 | 00h27

Protesto contra Trump em Londres logo após  eleição. Crédito: Hanna McKay/Reuters

Protesto contra Trump em Londres logo após eleição. Crédito: Hanna McKay/Reuters

A terceira quebra consecutiva do recorde de temperatura média global deveria ser vista como um sinal inequívoco de que o planeta está aquecendo por culpa de atividades humanas, por causa das nossas emissões desenfreadas de gases de efeito estufa resultantes dos nossos processos energéticos e de uso da terra, principalmente.

Não é uma anomalia dos últimos três anos. É o pico de uma tendência de aquecimento que ficou mais evidente neste século, mas que já se estende por décadas. Desde 1976, a temperatura média do planeta não fica abaixo da média histórica do século 20. Comparando com níveis pré-Revolução Industrial, a temperatura já subiu 1,1°C, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

E se continuarmos nos níveis atuais de emissões de gás carbônico e de outros gases de efeito estufa, como o metano, que aprisionam o calor na atmosfera, a situação vai ficar muito pior. É o que a vasta maioria dos cientistas diz, é o que líderes empresariais cada vez mais têm aceitado como uma questão de importante impacto econômico e é o que motivou 196 países do mundo a fecharem o Acordo de Paris, em dezembro de 2015, que estabelece esforços para conter o aquecimento a menos de 2°C até o final do século.

Temperatura média do planeta em 2016

Já se sabe que todo o esforço que os países se comprometeram a adotar até o momento não será suficiente para alcançar este fim. O que então pode acontecer com esses planos e com o planeta com Donald Trump assumindo a presidência dos Estados Unidos a partir desta sexta?

O magnata se manifestou várias vezes como um negacionista do problema, disse que o aquecimento global é uma conspiração inventada por chineses, falou que iria “cancelar” o Acordo de Paris e convidou para o governo pessoas que aparentemente compartilham dessa opinião.

O novo secretário de Estado, por exemplo, Rex Tillerson, era CEO da Exxon Mobil, companhia de petróleo. Se bem que algumas análises que saíram sobre ele na imprensa americana o descreverem como mais flexível.

Já a escolha de Trump para dirigir a Agência Ambiental Americana (EPA), Scott Pruitt, procurador-geral de Oklahoma, defendeu nesta quarta-feira (18), em audiência no Senado americano, que ainda há “algum debate” sobre o papel das atividades humanas nas mudanças climáticas e defendeu sua relação com a indústria de combustível fóssil. A EPA é justamente o órgão responsável por controlar as emissões do setor de energia no país.

Enquanto cientistas, ambientalistas e líderes de várias partes do mundo – até mesmo os chineses – urgem Trump a não tomar medidas que piorem as mudanças climáticas, alguns pesquisadores já estão calculando qual pode ser o tamanho do estrago.

O tamanho do impacto. Em um artigo publicado na revista Nature Climate Change logo após o Natal, Benjamin Sanderson e Reto Knutti, do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas dos EUA, sugeriram que se os Estados Unidos atrasarem seus planos de mitigação, muito provavelmente a meta dos 2°C estará perdido.

Os EUA são hoje o segundo maior emissor de gases de efeito estufa no mundo, atrás apenas da China, respondendo por 18% das emissões globais. A gestão Obama se comprometeu, junto ao Acordo de Paris, a reduzir de 26% a 28% suas emissões até 2025, em comparação com os níveis de 2005.

Apesar de Trump ainda não ter traçado exatamente um plano de ação no setor energia, as indicações são de que a política será centrada em combustíveis fósseis, com o relaxamento do Plano de Energia Limpa de Obama.

Os pesquisadores consideraram alguns cenários. O primeiro seria de manutenção. Por oito anos – considerando um segundo mandato –, os EUA manteriam seus níveis de emissões, sem tomar nenhuma medida mitigadora, atraso que eventualmente poderia ser seguido por outras nações.

Um cenário pior é se, além de não fazer nada para reduzir a quantidade de CO2 lançada na atmosfera, o país aumentar a sua contribuição ao problema, ao incentivar, por exemplo, o carvão. Nessa situação, o tempo posterior para as emissões voltarem ao nível atual seria de 15 a 20 anos, calcula a dupla.

A nova administração, lembram os pesquisadores, também sugeriu que poderia retirar investimento em energias renováveis, o que também atrasaria uma retomada após 8 anos. Também nessa linha, poderiam ser retirados os incentivos para pesquisas de tecnologia de remoção de CO2 da atmosfera.

Do menos para o mais dramático, o impacto de Trump no clima poderia ser de 350 a 450 bilhões de toneladas de CO2 extras em emissões acumuladas. “A probabilidade de ficar abaixo de 2°C cairia de cerca de ⅔ para cerca de 10% ao longo do século, com um aquecimento crescendo de 1,7°C a 2,5°C”, alertam.

Desde a eleição, muitos especialistas e líderes empresariais e políticos – inclusive o presidente Obama – tentaram manter um otimismo pragmático, opinando que as forças de mercado vão prevalecer, que o caminho da energia limpa não tem volta e que as economias subnacionais vão fazer com o que o país mantenha o rumo. Que a roda da economia de baixo carbono está girando, gerando empregos e nem Trump vai conseguir pará-la.

Por via das dúvidas, na semana passada, um grupo de 540 empresas e 100 investidores enviou uma carta a Trump e ao novo Congresso pedindo que apoiem ​​políticas para acelerar um futuro com baixas emissões de carbono para combater as mudanças climáticas.

Entre os signatários estão Nike, L’Oreal, Levi’s, Starbucks, Gap, Hilton, Johnson & Johnson e Unilever, e grandes corporações multinacionais como DuPont, General Mills, Hewlett Packard Enterprise, IKEA e Kellogg Company. Juntas, representam uma receita anual de quase US$ 1,15 trilhão, estão sediadas em 44 estados e empregam cerca de 1,8 milhão de pessoas.

Os apelos ou a razão vão prevalecer? Difícil saber, mas a tomar pela velocidade em que o planeta está aquecendo, não temos muito mais tempo.