Análise: O Acordo de Paris não é sobre os EUA, sr. presidente, mas sobre o planeta inteiro

Análise: O Acordo de Paris não é sobre os EUA, sr. presidente, mas sobre o planeta inteiro

O presidente Donald Trump falou que o Acordo de Paris era injusto com o povo americano. Resumiu: “O Acordo de Paris não põe América em primeiro lugar!” É claro que não, sr. presidente, o acordo põe o planeta em primeiro lugar

Giovana Girardi

01 Junho 2017 | 20h21

Mulher em Nova York protesta contra decisão de Trump. Crédito: AFP PHOTO / Jewel SAMAD

Ao anunciar a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris, o presidente Donald Trump falou repetidas vezes como o acordo era injusto com a economia, com a soberania, com o povo americano. Resumiu em uma de suas frases de efeito. “O Acordo de Paris não põe América em primeiro lugar!” É claro que não, sr. presidente, o acordo põe o planeta em primeiro lugar. O planeta Terra, onde mais de 7 bilhões de pessoas, inclusive os americanos, vivem.

Trump elevou nesta quinta-feira seu extremo nacionalismo ao nível da irresponsabilidade. O aquecimento global, como o nome bem diz, é global. Quando 195 países, os Estados Unidos inclusive, assinaram o acordo em dezembro de 2015, é porque todos entenderam que chegou um momento em que, ou todos fazem sua parte, ou todos igualmente vão sofrer as consequências.

Na visão auto-centrada de Trump, porém, “o acordo é menos sobre o clima e mais sobre outros países ganhando vantagem sobre os Estados Unidos”.

Além de míope, é uma visão que falta com a verdade. Falar que milhões de empregos americanos serão perdidos ou que a economia teria um custo alto para atender ao acordo é contar só uma parte da história. Trump citou um estudo que calcula perdas, mas não olha para diversos outros estudos que apontam ganhos – de empregos e para a economia.

Presidente Donald Trump durante o anúncio da retirada dos EUA do Acordo de Paris. Crédito: Doug Mills/The New York Times

Empregos. Relatório divulgado há uma semana pela Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) contabilizou quase 800 mil empregos só nos Estados Unidos no setor. São mais de 100 mil só em eólica, um crescimento de 26% no ano passado, de acordo com este levantamento. Já os empregos em energia solar, segundo a Irena, estão crescendo 17 vezes mais rápido que os empregos do resto da economia americana.

Um outro relatório de empregos em energia do próprio governo americano revelou um aumento de 25% dos empregos na indústria de energia solar só no ano passado, chegando a 373.807 vagas. Contra 86.035 da geração a carvão e cerca de 50 mil na mineração de carvão. Mas Trump insiste no setor: “Ocorre que eu amo mineradores de carvão”, disse no pronunciamento.

O presidente americano insistiu diversas vezes que o acordo foi desenhado para exigir sacrifícios dos americanos, enquanto outros países poderiam continuar poluindo. Ele falou isso com base, por exemplo, na meta da China como contribuição ao Acordo de Paris, em que se comprometeu a atingir o pico de emissões em 2030.

Desde então, porém, o país tem liderado investimentos em renováveis. Já investe mais que o dobro dos Estados Unidos em energia limpa e suas emissões estão estáveis ou com leve queda há três anos. Até 2030, a China deve ter em capacidade instalada em energia renovável mais que toda a capacidade americana atual em todas as fontes de energia.

Amanhã, União Europeia e China vão fazer um pronunciamento conjunto em Bruxelas reafirmando seus compromissos com o Acordo de Paris e se posicionando como lideranças nesse processo. Há uma expectativa grande que os países acabem ocupando o espaço deixado pelos Estados Unidos nos esforços de combate às mudanças climáticas. Cidades e Estados americanos, além de empresas, também já disseram que vão continuar seus esforços, independentemente da posição federal.

Emissões. O problema, porém, é que sem os Estados Unidos, o resto do mundo vai ter de se esforçar um bocado para suprir essa ausência. Das promessas que todos os países conjuntamente fizeram para reduzir suas emissões até 2030, os EUA respondiam por 21% do total. Lembrando que o país é o maior emissor histórico de gases de efeito estufa.

Além de não cumprir a redução de emissões prometida, se o país seguir na trilha do carvão, como diz Trump, as emissões americanas podem vir a subir. Fora que Trump também pulou fora do Green Climate Fund, um fundo que previa levantar US$ 100 bilhões até 2020 e esse valor anualmente depois disso para ajudar os países mais pobres a também fazerem sua transição para uma economia de baixo carbono.

O Acordo de Paris tem como objetivo principal conter o aumento da temperatura a bem menos de 2°C até 2100. Trump fez pouco caso desse aquecimento, disse que ele é “pequenininho”.

Bom, a ciência já disse que é suficiente para fazer bons estragos em termos de intensificação de eventos extremos, como os Estados Unidos, aliás, já vêm sentindo. Na tentativa de colocar a América em primeiro lugar, Trump está, na verdade, deixando de proteger os empregos dos americanos e pondo em risco sua população, assim como a de todo o mundo.