A voz das Ilhas Marshall

A voz das Ilhas Marshall

Giovana Girardi

13 Dezembro 2014 | 20h15

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As negociações na Conferência do Clima da ONU, em Lima, entraram nesta tarde num momento delicado. A última proposta de texto, divulgada durante a madrugada de sexta para sábado (horário local), não foi aceita pela plenária e agora o presidente da COP, o ministro do meio ambiente do Peru, Manuel Pulgar-Vidal, faz reuniões com cada grupo para tentar destravar o acordo.

Para entender um pouco esse processo, é curioso prestar atenção em como cada país se posicionou diante desta versão do texto. De um lado, apoiando a redação como está, tem-se União Europeia, Estados Unidos, Austrália, Rússia, Japão e outros países desenvolvidos. Do outro lado, Brasil, China, o grupo da África, países ilhas e outros países menos desenvolvidos dizendo: não dá, tá muito ruim.

Ficaram de fora menções que, principalmente para os mais pobres e já afetados pelas mudanças climáticas, são muito importantes, como o mecanismo de perdas e danos. Este pressupõe que para os locais já bastante impactados, que estão além da condição de se adaptar às mudanças climáticas, deveria haver alguma compensação financeira. Esses países querem que isso entre no jogo o quanto antes. De modo que precisaria estar em Lima.

Brasil, China, Índia e África do Sul – os Basic – insistem em querer que apareça, de forma mais clara, no texto o princípio da Convenção do Clima que prevê as Responsabilidades Comuns, Porém Diferenciadas (CBDR, na sigla em inglês). É isso que, em última instância, vai garantir a diferenciação na forma como cada nação vai ter de contribuir para a redução das emissões dentro do novo acordo climático a ser definido em Paris, no ano que vem, e válido a partir de 2020.

Essa divisão rico de um lado e emergentes/pobres do outro dá bem um tom de quem pode estar se beneficiando mais com o acordo no formato apresentado de manhã. Mas foi particularmente curiosa a declaração que o negociador chefe dos EUA, Todd Stern, deu durante a plenária.

Segundo ele, este texto não reflete muitas das visões do país. “Nosso ponto de vista não está prevalecendo neste texto”, disse tentando acalmar os ânimos de quem não concorda com o documento. “Podemos melhorar, mas não temos mais tempo. Não vamos perder vista o que esta em jogo. O sucesso da COP de Lima está em jogo e o da próxima COP em Paris. Se falharmos nisso, vamos ter um colapso. Tudo o que conquistamos até agora e o que podemos conquistar está em risco.”

Não convenceu ninguém. Sem consenso, agora toca esperar para ver se Pulgar-Vidal vai conseguir superar as divergências e construir um novo texto que agrade todos os lados. Ou pelo menos desagrade igualmente a todos, o que também pode ajudar a construir o consenso.

Nesse fogo cruzado, merece nota o comportamento das Ilhas Marshall, uma das pequenas ilhas do Pacífico que podem ser uma das primeiras a desaparecer com o aumento do nível do mar. Desesperadas, frisaram em plenária que estão insatisfeitas com o texto, mas praticamente imploraram para que se aprovasse o texto mesmo assim. “Não podemos nos dar ao luxo de perder esse tempo, propomos adoção agora. Porque não podemos mais esperar”, disse o negociador do país. Foi longamente aplaudido pela plenária. Ele não apoiava os ricos, simplesmente gritava por sobrevivência.

Nesses momentos, dá uma aflição danada reportar um processo que é difícil demais, e injusto demais. Ainda assim, talvez seja o mais justo, porque ao menos nele, mesmo as Ilhas Marshall têm voz.