A vida secreta das onças, o maior felino das Américas

A vida secreta das onças, o maior felino das Américas

Temidas e caçadas em vários cantos Brasil, as onças-pintadas estão ameaçadas de extinção pela ação do homem. Novo livro 'Panthera onca, à sombra das florestas' traz informações científicas e histórias que mostram que animal fantástico o Brasil e o mundo estão perdendo. Veja galeria de fotos

Giovana Girardi

05 Abril 2017 | 07h00

Onça-pintada é tema de novo livro que busca estimular sua conservação. Crédito: Adriano Gambarini

Onça-pintada é tema de novo livro que busca estimular sua conservação. Crédito: Adriano Gambarini

Nas últimas semanas, notícias envolvendo onças chamaram a atenção no Estado de S. Paulo. Em um caso investigado como crime ambiental, caçadores mataram uma onça-pintada na reserva de Mata Atlântica de uma fazenda em Juquiá, no Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, exibiram-na como um troféu em redes sociais e depois alegaram legítima defesa. Em outro caso bem mais prosaico, um morador encontrou uma suçuarana (onça-parda) no quintal de casa, em Bastos.

Em comum, as duas histórias não têm apenas o fato de se passarem com onças, mas por ambas refletirem problemas que as espécies enfrentam no País e que as colocam ameaçadas de extinção – em especial a caça ilegal, por diversão ou por reação a ataques ao gado; e a perda de habitat.

Para ajudar a esclarecer a importância do maior felino das Américas e mostrar que animal fantástico podemos estar perdendo no Brasil, um grupo super especializado em onças acaba de lançar um livro que busca popularizar informações sobre elas e, quem sabe, conseguir diminuir a pressão que existe.


O líder do trabalho é o biólogo Rogério Cunha de Paula, analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e chefe substituto do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), gerido pelo ICMBio em Atibaia. Além dele participaram a jornalista Laís Duarte e o coordenador do Projeto Onçafari, Mario Haberfeld. As fotos são de Adriano Gambarini. Veja abaixo galeria com algumas dessas fotos.

Conflitos. Segundo Paula, a ideia do livro veio do seu histórico de gerenciador de conflitos entre homem e animal, área em que ele atua desde 1997. Em todo o Brasil, da Mata Atlântica à Caatinga, da Amazônia ao Pantanal e também no Cerrado, as onças estão no alvo de caçadores.

Nos dois primeiros biomas da lista, é onde elas estão mais ameaçadas, principalmente por diminuição das áreas de floresta. Contagem da qual o biólogo participou, publicada no final do ano passado, apontou para menos de 300 onças-pintadas em toda a Mata Atlântica (incluindo Argentina e Paraguai). Na Caatinga, estima-se que podem ser menos de 200.

Com menos mata, elas desaparecem ou por falta de comida ou porque invadem fazendas atrás de gado ou outros animais e acabam mortas pelos fazendeiros ou caçadores esportivos ou porque, nesse trajeto, acabam sendo atropeladas.

“Cada lugar tem um conflito. Na Caatinga, por exemplo, o rebanho fica muito solto, está super disponível para a onça. Trabalhamos formas de trazer os animais para mais perto, cercá-los”, afirma Paula. “Já no Pantanal, onde o gado também fica solto, mas em enormes rebanhos, é mais difícil cercar. E os produtores têm mais resistência em mudar a tradição pecuária. Mas percebemos que as onças às vezes atacam em lugares específicos, então dá para ter ação nesses locais”, explica.

Para o Pantanal e também para a Amazônia e um pouco para o Cerrado, diz, a “grande solução” é trabalhar com o turismo de observação, de modo a compensar eventuais perdas de gado desses produtores e permitir que eles lucrem com a onça. Assim, a morte do felino seria um prejuízo maior do que o gado perdido de vez em quando.

Já na Mata Atlântica e na Caatinga, porém, as populações são tão diminutas que as chances de observar uma onça pintada é bem reduzida. “Os fragmentos de floresta são tão pequenos que as onças não conseguem se estabelecer no local. É um animal territorialista, precisa de espaço. E se não consegue se estabelecer, fica mais sujeito aos riscos de atropelamento e caça”, explica.

Hoje os cientistas não se arriscam a dizer qual é a área mínima para um animal viver porque ele tem se adaptado às condições que tem. Em Foz do Iguaçu, por exemplo, onde está a maior população de onças da Mata Atlântica, um indivíduo consegue viver numa área de 140 km². Por outro lado, um animal macho já foi detectado vivendo uma área tão grande quanto 2 mil km² em uma região degradada do Cerrado que tem alguns pequenos fragmentos de vegetação.

A perda do felino, informa o pesquisador, traz uma série de problemas para o próprio equilíbrio ecológico da região. Topo da cadeia alimentar, as onças se alimentam de animais grandes, como capivaras, veados, porcos do mato e até jacarés. Se não tem onça, pode haver uma explosão demográfica de capivaras, por exemplo, que já são problemas em muitos lugares porque atacam plantações de milho e de cana.

“Elas vão destruir tudo o que tem pela frente. Na floresta, porcos do mato, como queixadas e catetos, destroem as mudas ao fuçar o chão em busca de sementes e raízes. Se a população deles explode, pode haver uma degradação de parte da floresta, que não vai conseguir produzir novas árvores”, explica Paula. “Precisa ter o equilíbrio de todos os animais para manter todos sob controle.”