A história da cobra que pôs em risco uma floresta inteira
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A história da cobra que pôs em risco uma floresta inteira

Espécie de cobra levada à ilha de Guam, no Pacífico, provavelmente depois da Segunda Guerra Mundial, aniquilou 10 de 12 espécies de aves que viviam na região e, sem os animais, que dispersam sementes, as árvores também começaram a desaparecer

Giovana Girardi

08 Março 2017 | 17h48

A cobra-arbórea marrom aniquilou 10 das 12 espécies de aves de Guam. Crédito: Isaac Chellman

A cobra-arbórea marrom aniquilou 10 das 12 espécies de aves de Guam. Crédito: Isaac Chellman

Era uma vez uma cobra, provavelmente da Papua Nova Guinea, que nos anos 1940 foi parar num navio cargueiro que se dirigia para a ilha de Guam, no Pacífico Oeste. Lá chegando, o animal, exótico para aquelas paragens, se deu muito bem, se multiplicou e comeu todas as aves que viu pela frente. Junto com as aves, também desapareceram as árvores da floresta tropical.

O relato do estrago feito pela cobra-arbórea-marrom (Boiga irregularis), publicado nesta quarta-feira (8) na revista científica Nature Communications por pesquisadores americanos e de Guam, traça um quadro mais abrangente do impacto que espécies invasoras podem ter.

Os autores, liderados pela bióloga Haldre Rogers, das universidades de Iowa e de Washington, descobriram que sem as aves, que têm um papel crítico na dispersão de sementes, o crescimento de novas árvores na ilha pode ter caído até 92%.


“O impacto total da invasão da cobra-arbórea marrom e da perda de aves ainda está se desenrolando, mas nossos resultados sugerem claramente que os efeitos indiretos serão grandes, potencialmente afetando a composição e a estrutura da floresta”, disse, em comunicado à imprensa, Joshua Tewksbury, diretor para o núcleo do Colorado da organização Future Earth e co-autor do trabalho.

Os pesquisadores acreditam que a espécie chegou a Guam provavelmente depois da Segunda Guerra Mundial. Já nos anos 1980, a cobra havia aniquilado 10 das 12 espécies de aves florestais nativas, entre elas uma ave conhecida localmente como ko’ko’ (Gallirallus owstoni), o martim-pescador de Guam (Todiramphus cinnamominus) e o chuguanguang (Myiagra freycineti). As duas primeiras ainda são encontrados em cativeiros, mas a terceira está globalmente extinta.

Haldre contou, no comunicado à imprensa, que é possível perceber o que ocorreu em Guam apenas pelo barulho – ou a ausência dele –, na comparação com outras ilhas próximas, onde a cobra nunca chegou.
“Em Saipan, há um constante gorjeio de aves e você vê diferentes espécies. Em Guam, há um silêncio. É uma sensação muito estranha passar um dia sozinho na selva em Guam”, disse.

Experimentos. Para checar o impacto da perda das aves sobre as árvores, os pesquisadores conduziram alguns testes. Primeiro, eles checaram como se dá a dispersão das sementes e viram que mais de 70% das árvores da ilha produzem pequenos frutos. As sementes se espalham quando as aves e também morcegos comem as frutinhos e defecam as sementes longe do local onde se alimentaram. Mas Guam também perdeu seus morcegos.

Depois os autores instalaram cestas para coletar as sementes que caem no chão de duas espécies comuns de árvores na região: Psychotria mariana e Premna serratifolia. A ideia era checar se as sementes conseguem cair longe das árvores-mães, o que ajudaria na dispersão da sementes, mas eles viram que em Guam menos de 10% das sementes conseguem ir além da vizinhança próxima.

Pomba frutífera (Ptilinopus roseicapilla) presente em outras ilhas se alimenta do fruto da árvore Premna serratifolia. Crédito: Lainie Berry

Pomba frutífera (Ptilinopus roseicapilla) presente em outras ilhas se alimenta do fruto da árvore Premna serratifolia. Crédito: Lainie Berry

Para comparar, eles fizeram a mesma checagem nas ilhas próximas, que ainda têm aves, e viram que lá mais de 60% das sementes podem ser encontradas bem longe das árvores-mães, provavelmente carregadas pelas aves.

O quadro fica ainda pior. Os cientistas observaram que as sementes que passam pelo trato digestivo dos pássaros têm de duas a quatro vezes mais chances de germinar do que aquelas que não passaram. Os pesquisadores acreditam que isso ocorre porque as enzimas digestivas das aves ajudam a quebrar a casca dura das sementes.

Com tudo isso, os pesquisadores calcularam que a ausência das aves resultou numa redução de 61% a 92% da abundância de novas mudas dessas duas espécies de árvores.

“Este estudo de caso destaca o potencial que espécies invasoras têm de causar impactos em cascata, que podem ser amplamente difundidos e facilmente negligenciados”, alertam os cientistas no artigo.

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