Consumo inconsciente

Consumo inconsciente

Alessandra Luglio

06 Junho 2016 | 13h24

desmatado

Olhando um pouquinho para trás, lembrando das nossas aulas de história do colégio, a história recente da humanidade foi marcada pela grande revolução industrial que entre os anos de 1700 e 1900 ditou novos modelos de vida, novas necessidades e impactou drasticamente a relação entre os homens e a relação homem-natureza. Não desmerecendo tantos avanços estruturais, técnicos e científicos essenciais para que pudéssemos desfrutar de melhor qualidade de vida e maior expectativa de vida, hoje sofremos também as ameaçadoras consequências de toda essa produtividade e aceleração: o consumismo inconsciente e, vou mais a fundo, irracional, que inundou nosso modo de vida, nossos valores, nossas relações pessoais e nosso ego. Esse processo nos desconectou da nossa essência e ritmos naturais, amorteceu nosso raciocínio lógico trazendo consequências possivelmente irreparáveis para a humanidade e para todo o ecossistema que não suporta e nem suportará tamanho descuidado com o uso dos recursos naturais. Esses recursos não possuem a capacidade de se regenerar em tempo hábil tamanho o desleixo e ganância com que são utilizados para satisfazer essa folia de consumo.

chaminé

O consumo irracional e alienado tem como base as premissas da produtividade, geração de recursos financeiros e riquezas, estimuladas pela era industrial, produzir mais em menos tempo, alimentar uma sociedade embasada no poder econômico que a dividiu em classes, onde o intelectual e respeito aos seres tem menor “valor” do que as posses. O “ter” determina o “ser”. Consumismo assegurado pela publicidade que nos induz a consumir supérfluos manipulando as nossas necessidades; os bancos que nos induzem a nos endividar para satisfazer o consumo do desnecessário; os débitos que nos constringem a trabalhar mais e mais para saudá-los; a vaidade que nos faz ostentar o status simbólico ao invés do que realmente nos faz sentido; a constante necessidade de substituir produtos menos recentes por mais atuais mas que possuem a mesma serventia. O resultado final é uma enorme transformação de recursos em refugos sem que se leve em conta que a Terra nunca conseguirá retransformar todos esses refugos em recursos. Mas espera aí, deixando de lado toda a complexa problemática ambiental, pergunto: Somos ao menos felizes assim?

geladeira

Onde está nosso tempo livre? A plenitude pessoal? Infelizmente somos vítimas de tudo isso, nunca se consumiu tantos medicamentos de cunho emocional: drogas contra a depressão, hiperatividade, moderadores de apetite…

Vivemos em uma sociedade doente, possuímos um arsenal nuclear capaz de destruir mais de 50 planetas; 1/5 da humanidade consome 4/5 da riqueza mundial; jogamos fora a metade dos produtos alimentícios armazenados em nossas geladeiras; metade do planeta sofre de fome e desnutrição e a outra das consequências da obesidade; para se obter 1g de proteína animal utiliza-se 12g de proteínas vegetais; utiliza-se em média 3 toneladas de petróleo para se obter 1 de fertilizante químico; 400 litros de água para produzir 1 quilo de cereal e 4.000 para 1 quilo de carne; no primeiro mundo os gastos com a saúde estão superando os referentes à alimentação.

vacas

 

Na luz dos anos 2.000 começa-se a perceber que todos nós obcecados por ter, somos displicentes com o ser, que existe algo vazio e nos falta tempo. Toda a metódica industrial e os avanços tecnológicos nos fizeram ganhar muito tempo, e o que fizemos? Ao invés de desfrutarmos tais inovações que produz mais em menos tempo e aproveitarmos o tempo livre para gozar de momentos de prazer e, vida, ao pé da letra, o modelo atual nos faz produzir mais e mais sem tempo livre alimentando assim uma espiral de consumo desenfreada que acaba por nos esgotar física e emocionalmente, leva ao esgotamento dos recursos naturais, à saturação do mercado e enfim, ao grave problema de desemprego que estamos vivendo. Esta escolha insensata se volta como um boomerang contra nós mesmos nos auto condenando à uma vida “infernal” baseada em noites de insônia, insegurança, ansiedade e, tantas vezes, de tristeza. Um mundo de relações humanas frias, indiferença no lugar de confiança, contabilidade no lugar do afeto, resultados no lugar de boas intenções, um mundo de relações homem-natureza embasado na soberania, indiferença e inconsequência que a cada dia nos manda “recados” clamando por mais afeto, cuidado e respeito.

Ale

É hora de RE-pensar, RE-fletir, RE-começar….